Poucos países estiveram do lado receptor de tantas medidas tarifárias distintas dos EUA num intervalo tão curto quanto o Brasil. Desde fevereiro de 2025, Washington anunciou, escalou, reverteu parcialmente e voltou a ameaçar com tarifas sobre produtos brasileiros pelo menos meia dúzia de vezes — culminando, em junho de 2026, numa proposta de nova sobretaxa de 25% no âmbito de uma investigação sob a Seção 301. Para os exportadores brasileiros, a lição desses últimos dezesseis meses não foi esperar por estabilidade. Foi diversificar.
Uma linha do tempo de solavancos
A sequência lê-se como um teste de estresse das relações comerciais bilaterais. Em fevereiro de 2025, Washington impôs uma tarifa de 25% sobre aço e ferro brasileiros, com base na Seção 232, alegando proteção à indústria doméstica. Em abril, veio uma tarifa "recíproca" de 10%, dentro do programa mais amplo do "Liberation Day" do governo americano. Em maio, a tarifa do aço já tinha dobrado para 50%. Em julho, o presidente Trump enviou uma carta ao presidente Lula ameaçando uma tarifa geral de 50% sobre todos os produtos brasileiros — invocando tanto queixas comerciais quanto o processo judicial em curso contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. Essa ameaça se concretizou em 30 de julho, quando o governo americano declarou "emergência nacional" em relação às políticas do Brasil e impôs uma tarifa adicional de 40% sobre os 10% já existentes, elevando a alíquota acumulada a 50% para os produtos não isentos, com vigência a partir de 6 de agosto.
A história não parou aí. Em novembro de 2025, após negociações, Washington retirou 238 linhas tarifárias — a maioria produtos agrícolas — da tarifa de 40%. Café, frutas tropicais, cacau, banana, laranja e carne bovina entraram na lista de isenções dias depois. Em fevereiro de 2026, a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu, num processo separado, que o uso por Trump de poderes de emergência para impor as tarifas do Liberation Day excedia sua autoridade legal — derrubando, na prática, o regime de 50% e deixando o Brasil sujeito apenas à tarifa global-base de 10%. Já em junho de 2026, Washington abriu uma nova frente: o Escritório do Representante de Comércio dos EUA propôs uma tarifa de 25% no âmbito de uma investigação sob a Seção 301, citando como pendências as regras brasileiras de comércio digital, a fiscalização de propriedade intelectual, o acesso ao mercado de etanol e o desmatamento.
O que o Brasil fez em vez de esperar
O governo brasileiro não apostou só na via diplomática. Pouco depois da escalada de julho de 2025, o Congresso aprovou a Lei da Reciprocidade Econômica, dando ao Executivo poder para impor medidas retaliatórias sobre bens, serviços, investimentos e propriedade intelectual sem precisar de autorização prévia da OMC — e afastando o princípio da nação mais favorecida, de modo que as contramedidas pudessem mirar especificamente os Estados Unidos. O Brasil também protocolou uma disputa formal contra Washington na OMC em agosto de 2025. Na prática, porém, o governo Lula manteve a retaliação majoritariamente em reserva, optando por buscar uma desescalada negociada: ajustando a política doméstica de redes sociais e data centers para atender queixas americanas, abrindo conversas sobre um acordo bilateral de minerais críticos e tributação, e participando diretamente da investigação da Seção 301.
Os exportadores, enquanto isso, se moveram mais rápido que os diplomatas. Apesar da turbulência tarifária, o Brasil fechou 2025 com receita recorde de exportações, alta de US$ 11,6 bilhões na comparação anual — mesmo com os embarques especificamente para os Estados Unidos caindo US$ 2,6 bilhões. A lacuna foi preenchida majoritariamente por compradores voltados à Ásia, e analistas de comércio descrevem a mudança não como uma reação passageira, mas como um realinhamento estrutural da geografia exportadora brasileira, em direção a nova capacidade de processamento e joint ventures fora do mercado americano.
O pano de fundo macroeconômico
O conflito tarifário se desenrolou sobre uma economia doméstica que o FMI descreve como resiliente, apesar dos múltiplos choques. O Banco Central do Brasil cortou a Selic para 14,75% em 2026, parte de um ciclo gradual de afrouxamento, enquanto o crescimento é projetado pelo FMI para se fortalecer a algo em torno de 2,5% no médio prazo. O FMI apontou especificamente que o Brasil está relativamente protegido dos aumentos globais no preço do petróleo — decorrentes do conflito no Irã — dado seu status de exportador líquido de petróleo e sua alta participação de energia renovável na matriz elétrica. A inflação, porém, surpreendeu para cima, em parte por essas mesmas pressões energéticas globais, deixando o Banco Central com menos margem para cortes agressivos de juros do que se esperava antes.
O que ainda está em aberto
Nada disso está resolvido. A proposta da Seção 301 lançada em junho de 2026 ainda não foi finalizada, e autoridades brasileiras já contestaram publicamente a justificativa ligada ao desmatamento, citando dados de satélite do INPE que mostram o menor índice de desmatamento na Amazônia já registrado. Trump também ameaçou, à parte, uma tarifa de 25% sobre qualquer país que negocie com o Irã — categoria que, tecnicamente, inclui o Brasil, cujo comércio com o Irã representa uma fração pequena do total exportado, embora Washington ainda não tenha agido sobre essa ameaça. Com o Brasil caminhando para as eleições gerais de outubro de 2026, a política comercial deve continuar sendo uma questão política viva dos dois lados da relação pelo resto do ano.