Pelos nĂşmeros dos quais o Brasil mais se orgulha, a AmazĂ´nia nunca esteve tĂŁo bem. O desmatamento por corte raso na AmazĂ´nia Legal caiu para 5.796 quilĂ´metros quadrados no ano encerrado em julho de 2025 — uma queda de 11% e o menor nĂşmero anual desde 2014. Mas, dentro desse mesmo perĂodo de apuração, pesquisadores que monitoram a floresta encontraram algo que o nĂşmero da manchete nĂŁo capturou: o fogo, e nĂŁo a motosserra, se tornou a principal forma pela qual a floresta desaparece no Brasil — e os sistemas de monitoramento do paĂs nunca foram construĂdos para contabilizar isso da mesma maneira.
Os números por trás dos números
Em 2024, o Brasil perdeu 2,78 milhões de hectares de floresta primária — o maior nĂşmero desde 2019 — e cerca de 60% dessa perda veio do fogo, que queimou seis vezes mais floresta do que no ano anterior. Essa estatĂstica nĂŁo aparece no balanço oficial de desmatamento do Brasil, porque, como na maioria dos paĂses, esse balanço rastreia especificamente o corte raso, nĂŁo a queimada. A distinção nĂŁo Ă© apenas tĂ©cnica. A reportagem do Mongabay constatou que mais da metade — 51% — do desmatamento detectado recentemente ocorreu em áreas que haviam sido queimadas pouco antes, uma proporção recorde. Pesquisadores dizem que o padrĂŁo reflete uma mudança deliberada de tática: Ă medida que a fiscalização brasileira contra o corte raso direto melhorou, o fogo virou o mĂ©todo de menor risco e maior retorno para quem tenta se apropriar de terra de floresta para pecuária ou lavoura.
O prĂłprio clima abriu essa brecha para os grileiros. A seca excepcional de 2023 e 2024 deixou rios secos e bateu recordes de calor, ressecando áreas da floresta que historicamente eram Ăşmidas demais para pegar fogo com facilidade. Somado Ă expansĂŁo de novas estradas e ao padrĂŁo de "espinha de peixe" de desmatamento lateral que as acompanha, extensas áreas da AmazĂ´nia que antes ficavam bem no interior do nĂşcleo protegido da floresta hoje sĂŁo inflamáveis de um jeito que nĂŁo eram há uma dĂ©cada — o que significa que um fogo que escapa de uma queimada agrĂcola, proposital ou nĂŁo, agora encontra muito mais combustĂvel seco para se espalhar.
Um ano genuinamente melhor, com ressalva
Para ficar claro, 2025 trouxe melhora real especificamente na frente do fogo: as áreas queimadas, detectadas pelo sistema DETER do INPE, caĂram 45% — de 39.310 quilĂ´metros quadrados nos 12 meses atĂ© setembro de 2024 para 21.543 quilĂ´metros quadrados no mesmo perĂodo um ano depois. A degradação florestal, de forma mais ampla, tambĂ©m caiu de forma acentuada. Cientistas descrevem isso como uma recuperação parcial, nĂŁo como um problema resolvido: a vulnerabilidade de fundo criada por anos de seca acumulada e fragmentação florestal nĂŁo desapareceu, mesmo num ano em que menos incĂŞndios de fato eclodiram.
A ferramenta de fiscalização que acabou de ficar mais fraca
Quaisquer ganhos que o Brasil consiga contra a perda impulsionada pelo fogo agora precisam sobreviver sem uma das ferramentas centrais do sistema de fiscalização. Em 20 de maio de 2026, o Congresso brasileiro aprovou um projeto de lei que proĂbe os ĂłrgĂŁos ambientais de usar apenas imagens de satĂ©lite para restringir o uso comercial de terras suspeitas de desmatamento ilegal. Pela nova lei, suspeitas de infração passam a exigir confirmação por fiscais em visita fĂsica ao local antes que qualquer restrição entre em vigor. O diretor de proteção ambiental do Ibama, Jair Schmitt, disse Ă AgĂŞncia PĂşblica que a medida pode comprometer cerca de 70% das ações de fiscalização do ĂłrgĂŁo na AmazĂ´nia. SĂł entre janeiro e setembro de 2025, o Ibama emitiu 3.520 embargos de uso de terra ligados a desmatamento, 60% deles na AmazĂ´nia — exatamente o tipo de ação que a nova lei torna mais difĂcil de executar.
O problema prático Ă© de escala: o Brasil tem cerca de 1.250 agentes para patrulhar uma área de floresta do tamanho aproximado da Europa Ocidental. Os embargos disparados por satĂ©lite permitem ao Ibama restringir a atividade comercial em terra suspeita dias apĂłs a detecção, sem antes precisar mandar uma pessoa atĂ© um local remoto e muitas vezes de difĂcil acesso.
É como querer largar o celular e voltar a mandar mensagem por fax.
Assim Schmitt resumiu o projeto de lei — e a comparação captura, segundo fiscais ouvidos, o que realmente está em jogo: não se as infrações ainda poderão, eventualmente, ser confirmadas, mas se poderão ser interrompidas antes que o incentivo econômico para derrubar ou queimar a terra já tenha compensado.
O que vem a seguir
O quadro completo de como tudo isso interage — queda no corte raso, recuperação parcial do fogo e fiscalização por satĂ©lite enfraquecida — sĂł ficará visĂvel quando o Brasil divulgar seu prĂłximo balanço anual de desmatamento, referente a agosto de 2025 a julho de 2026, ainda este ano. Pesquisadores e autoridades descrevem esse relatĂłrio como o verdadeiro teste de se os ganhos de 2025 representaram uma mudança duradoura ou apenas uma trĂ©gua temporária antes de as ferramentas de fiscalização serem desmontadas. Com o Brasil caminhando para as eleições gerais de outubro de 2026 e a bancada ruralista continuando a empurrar novas medidas pelo Congresso, as maiores ameaças Ă floresta neste ano podem acabar sendo justamente aquelas que nunca aparecem como corte raso numa imagem de satĂ©lite.